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Fernando Pessoa: um homem de muitas faces

por Blog + leitura — publicado 06/10/2017 00h00, última modificação 10/10/2017 12h21
Colaboradores: Fúlvio Galhardo
As várias facetas do poeta português

Introdução

Figura 1 - Fernando Pessoa.

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Fonte: Wikimedia Commons contributors, 2014.

Hoje eu tenho uma pergunta para vocês: Já leram os livros de Fernando Pessoa? Ele foi um autor importantíssimo que escreveu diversas obras consagradas para a literatura mundial. Um grande diferencial deste escritor é a quantidade de heterônimos que ele conseguiu criar com tanta perfeição poética, literária e até mesmo biográfica, como se cada autor fictício existisse além do plano das ideias.

Para quem não sabe, heterônimos são autores fictícios criados por escritores de verdade e, no caso, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são alguns dos que foram criados por Pessoa.

Separamos alguns livros que exploram as diferentes personalidades do autor. Bora conferir?

 

1 Poesia completa de Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Figura 2 - capa do livro.

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Fonte: Fúlvio Galhardo, 2017.

Considerado o mestre do qual se determinam os outros heterônimos e do próprio Fernando Pessoa, nasceu em abril de 1889 e, órfão dos pais, viveu a vida inteira no campo. Caeiro defende a simplicidade da vida, expressando o contato com a natureza e como a realidade configura-se desta forma. Para ele, as sensações superam a filosofia das coisas e fazer poesia é uma atitude involuntária e espontânea.

 

Sou um guardador de rebanhos

 

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

(PESSOA, 1946).

 

Você pode encontrar esta e outras poesias de Alberto Caeiro na obra “Poesia completa de Alberto Caeiro”.

Este livro pode ser encontrado sob o código G 869.1 P475pc no Piso 2.

 

2 Ficções do Interlúdio/2-3, de Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

Figura 3 - capa do livro.

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Fonte: Fúlvio Galhardo, 2017.

Ricardo Reis foi imaginado por Fernando Pessoa no ano de 1913 para dar voz aos poemas de índole pagã e, conforme sua biografia inventada, nasceu no dia 19 de setembro de 1887, na cidade do Porto. Recebeu uma forte educação clássica em um colégio de jesuítas e como admirador da cultura clássica, estudou latim, grego e mitologia. Formou-se em medicina e, por ser grande defensor do regime monárquico, no ano de 1919 exilou-se no Brasil para fugir do regime republicano recém-instalado em Portugal.

O heterônimo possui um espírito clássico que definiu o tom de sua obra, sendo nela predominantes temas como as boas formas de viver, o prazer, a serenidade e o equilíbrio. É defensor da filosofia carpe diem e prega a procura dos prazeres para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo.

 

Segue o teu destino

 

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

(PESSOA, 1946).

 

Ficções do interlúdio/2-3 reúne Odes de Ricardo Reis além de mais escritos atribuídos à Coelho Pacheco, outro heterônimo de Fernando Pessoa.

Esse livro pode ser encontrado sob o código G 869.1 P475fa.4 no Piso 2.

 

3 Poesias de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Figura 4 - capa do livro.

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Fonte: Fúlvio Galhardo, 2017.

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Portugal, em outubro de 1890. Teve uma educação comum, qualificada de vulgar pelo próprio Fernando Pessoa. Posteriormente foi para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica, e depois naval. Considerado como um alter ego de Fernando Pessoa, Campos talvez seja sua personalidade literária mais elaborada, sendo o único heterônimo cuja escrita pode ser dividida em três diferentes fases.

  • A primeira fase é caracterizada como decantista, ou seja, uma visão pessimista do mundo. Expressa o tédio e a necessidade de fuga à monotonia e procura de novas sensações, como mostra este excerto do poema “Opiário”.

 

Esta vida de bordo há-de matar-me.

São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,

já não encontro a mola pra adaptar-me.

 

Em paradoxo e incompetência astral

Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,

Onda onde o pundonor é uma descida

E os próprios gozos gânglios do meu mal.

(PESSOA, 1944)

 

  • A segunda fase é futurista, exibindo o fascínio pelo progresso tecnológico, como podemos ver nesta parte de “Ode Triunfal”.

 

À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica  

Tenho febre e escrevo.  

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,  

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!  

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!  

Em fúria fora e dentro de mim,  

Por todos os meus nervos dissecados fora,  

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!  

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,  

De vos ouvir demasiadamente de perto,  

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso  

De expressão de todas as minhas sensações,  

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

(PESSOA, 1944).

 

  • A terceira fase é marcada pelo intimismo e pessimismo, encontramos um Álvaro de Campos angustiado e incompreendido. O poema “Tabacaria” é o grande destaque desta fase, podemos conferir neste trecho seu caráter triste:

 

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

(PESSOA, 1944).

 

Para conferir mais de Álvaro de Campos separamos o livro “Poesias de Álvaro de Campos”.

Esse livro pode ser encontrado sob o código G 869.1 P475pa no Piso 2.

 

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Referências

CONTRIBUTORS, Wikimedia Commons. File:216 2310-Fernando-Pessoa.jpg. 8 fev. 2014. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:216_2310-Fernando-Pessoa.jpg&oldid=115891277. Acesso em: 6 out. 2017.

PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

______. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

______. Segue o teu destino. In Odes de Ricardo Reis. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).